Lesbos – Atenas
A Passo Positivo respondeu ao desafio de uma voluntária – fazer uma missão humanitária, de curta intervenção, junto da população refugiada na Ilha de Lesbos.
Tendo consciência das limitações financeiras para o efeito, mas a vontade de colaborar assim como a disponibilização total dos recursos não financeiros para a missão, os voluntários formaram equipa e “arrancaram” com o projeto.
Os quatro missionários!
Diário da Missão
Dia 1 | 29 de Março de 2016
Dia de exploração e preparação da missão | Norte da ilha
Devido ao programa dos encontros semanais desta semana, e conscientes da importância da nossa presença nestes encontros, optamos por iniciar o reconhecimento do terreno a nível norte da ilha, lugar prioritário de entrada do país por parte dos refugiados, e onde estavam agendados encontros, e perceber como nos poderíamos integrar nesta circunstância.
A equipa optou por dividir-se. Duas pessoas estiveram presentes na reunião com a lighthouse refugee em Skala Skamineas para o ponto de situação do impacto ambiental e limpeza de praias. Os outros dois estiveram na reunião de Noth – Coordinator meeting em Molyvos para o brief semanal. Nesta reunião também estiveram presentes as ong: boat refugee fundation, …. O número de refugiados a chegar ao norte da ilha diminui drasticamente e as necessidades actuais prendem-se com a limpeza de praias e reorganização da normalidade da população local.
Tivemos contacto com as responsáveis do Projeto Dirty Girls e fomos conhecer o local onde trabalham. Trata-se de um projeto que tem como principal objetivo recolher roupa suja dos campos de refugiados e devolve-la lavada. Com esta atividade conseguiram poupar milhares de euros as UNHCR. Pediram colaboração no âmbito da realização de gestão de projetos.
Da parte da tarde, visitamos Molyvos com o objetivo de conhecer a policia marítima que tem nacionalidade portuguesa e no restante tempo centramos as nossas atividades em Skala Skamineas: visita de campo e às praias de desembarque, articulação com lighthouse refugee para a possibilidade de construção de um barco para limpeza de praias e ajuda na organização do campo.
Vídeo:
Dia 2 | 30 de Março
Dia de exploração da realidade local | Centro e Sul da ilha
O dia começou com uma reunião com Mariana Barbosa da Plataforma de Apoio aos Refugiados portuguesa (PAR), para troca de informação e planeamento da nossa intervenção. Tentamos ainda estar presentes na reunião quinzenal sobre gestão de água e saneamento, sem sucesso.
Da parte da tarde visitámos o campo de KaraTepe, um local bem estruturado e organizado, com gestão direta da autarquia local, onde a filosofia de acolhimento dos refugiados se baseia numa perspetiva familiar e de integração. O campo conta neste momento com cerca de 80 refugiados, para uma capacidade estimada de 1500 pessoas. Dado que este campo tem crianças, deixámos com o responsável do campo (Mirogiannis) o material escolar que trouxemos para Lesbos.
Ainda neste campo reunimos com a equipa médica, a qual nos informou que os problemas de saúde mais frequentes nos refugiados são as síndromes respiratórias altas, os distúrbios gastrointestinais, depressão, parasitoses cutâneas (ex.: piolhos) e, esporadicamente, doenças infecto-contagiosas (ex.: hepatite A).
Constatámos ainda que os campos de refugiados estão bem providos de material médico (em quantidade e qualidade), mas que o mesmo faz falta para a constituição de unidades móveis que possam dar apoio mais direto aos refugiados que chegam à costa.
De seguida tentamos visitar o campo de Moria, sem sucesso, embora tenhamos falado com alguns funcionários. Este campo está atualmente sob o controlo militar grego e com restrição rigorosa de entradas e saídas (razão pela qual algumas ONGs saíram do campo).
É neste campo que os novos refugiados recebem a primeira assistência básica, são registados na Eurodac (http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/…) e se inicia o processo de pedido de asilo. Os refugiados não podem sair do campo até o pedido de asilo ser submetido, mas podem aguardar a reposta ao pedido dentro da ilha. O campo conta com assistência médica e fornecimento de alimentos e terá atualmente cerca de 1000 refugiados em processo de registo/pedido de asilo.
Ao lado do campo de Moria fica o campo “Better Days for Moria”, o qual está neste momento vazio e em desativação, dado que os refugiados estão a ser todos encaminhados para o campo de Moria. Falámos com a responsável do campo (Amy Pappajohn) e visitámos as instalações ainda ativas.
Dia 3 | 31 de Março
Reformulação da Missão | e Lesvos ao Porto de Piraeus, Atenas
A equipa decidiu dividir-se. Duas pessoas estiveram no norte da ilha com a Lighthouse Relief na limpeza de praias e a construção de um barco que pudesse auxiliar na recolha do lixo das praias.
Outras duas pessoas foram para a Mitiline para a reunião de coordenação geral de Lesvos. Nesta reunião o ACNUR efetuou um ponto de situação dos refugiados na ilha e as restantes ONG e deu o seu parecer por área de trabalho (saúde, higiene, …). A divisão da equipa e a presença na reunião tinha o intuito de perceber qual a realidade em Lesvos e ponderar continuação da missão.
Visto não ser possível intervir com os refugiados que se encontram no campo de detenção e não havendo previsão da resolução da situação, devido ao acordo, ponderou-se ida para Atenas.
Durante a tarde foram efetuados as diligencias/ logística para Atenas, nomeadamente contacto com a instituição grega local para perceber as necessidades. Segundo a instituição, em Atenas estavam presentes mais de 5000 mil refugiados, principalmente no Porto de Piraeus e as necessidades em saúde eram evidentes.
As 18h seguimos de ferry até Atenas.
DIA 4 | 01 de Abril
PIREAS – PORTO DE ATENAS
Chegamos ao Porto de Atenas às 6h. Estávamos apreensivos com o que iríamos encontrar. As notícias da noite anterior eram a do total caos, com lutas entre as pessoas refugiadas. Reinava a calma e a “cidade de tendas” estava a dormir. Procuramos o nosso destino – PAMPIRAIKI, um grupo de cidadãos gregos que se organizaram para ajudar a “nova cidade”.
Trabalhamos o dia integrados nessa equipa. À porta da “StoneHouse” numa tenda montada fora de uma roulotte que servia de clínica a uma equipa de saúde da Hungria – já lá estavam há 12 dias e a trabalhar 24h/dia.
O trabalho passou por alguns tratamentos a feridas mas maioritariamente por avaliação de pediculose (piolhos e lendeas).
As pessoas refugiadas são educadas, respeitadoras e manifestamente gratas por toda a ajuda que estão a receber.
Ao final da tarde fomos convidados para ir prestar cuidados a Victoria Station, um local onde se encontravam pessoas refugiadas de dia e à noite iam para prédios que a comunidade local tinha reorganizado para eles – prédios abandonados.
Entre febre, diarreia, lombrigas, constipações – eram 22h quando paramos para comer.
Um dia longo mas muito rico de experiências. Aprendemos que um dos bens mais preciosos que a população tem, à exceção da água, é o papel higiénico! Como é tão relativa a necessidade…
DIA 5 | 02 de Abril
Dia de PORTO DE PIRAEUS | Continuação
Preparação do material e logística do dia e breve briefing do dia anterior e planeamento do dia.
Chegada ao porto as 10h30 para continuação do trabalho do dia anterior.
Deparamos com um cenário diferente, altifalantes e aglutinação de refugiados e policia e gestoras de conflito para encaminhar as famílias para autocarros onde seriam levados para um campo de refugiados, um junto a fronteira da Grécia com a Macedónia e um autocarro só para mulheres e crianças para irem para um campo em Atenas. Sabemos que dia 4 é o dia que recomeça a deportação das pessoas refugiadas, mas começa-se a perceber que já se está a deportar e reorganizar os refugiados que se encontram fora dos campos. O número de refugiados reduziu quase a metade durante a manha.
Foi feita prestação de cuidados de saúde a varias situações, a destacar, situação de crise convulsiva, situação de lipotimia, encaminhamento para o hospital de uma situação com cancro, aconselhamento em situação de stress pós-trauma. Tivemos um total aproximado de 85 consultas e 5 aconselhamentos, isto, no que deu tempo para podermos registar. A equipa apoiou outra da Hungria, com médica e enfermeira, pelo que ficamos responsáveis pelos tratamentos e casos de desidratação. A grande afluência à “clínica” era principalmente encaminhada para a médica avaliar e medicar.
Ainda, foi feito apoio emocional as pessoas, orientação e aconselhamento legal de recolocação e informação sobre deportação.
No final do dia foi entregue o restante material de saúde não usado a instituição grega local – PAMPIRAIKI
Regresso a Lesvos por causa da necessidade de apanhar o avião de regresso.
Um breve testemunho da realidade …
https://www.facebook.com/passopositivo/videos/o.781524035286507/1006620639422389/?type=2&theater
DIA 6 | 03 de Abril
Regresso
Hoje entra em vigor o acordo UE-Turquia e serão “devolvidos” os primeiros refugiados.
DIA 7 | 04 de Abril
Regresso
Uma missão. Vários testemunhos. O balanço à chegada.

























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